Na minha estante: O relato íntimo de Madame Shakespeare - Robert Nye

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Na obra "O relato íntimo de Madame Shakespeare" o autor observa através dos olhos da esposa de William Shakespeare toda sua vida pessoal, deixando o leitor a se questionar se é uma obra fictícia ou não.
Acredito que Nye consegue levar o leitor à antiga Londres, quando a monarquia ainda reinava, passando pelo Big Ben e tentando traduzir em palavras como um simples quarto pode se transformar em um mundo de fantasias dentro de quatro paredes.
Para os apaixonados pela poesia shakespeariana e para os que gostam de viajar através de cada palavra, vale a pena ler!

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Parte III - pág. 190 - Cap. 67

Meu marido, Sr. Shakespeare a comparou como um palco.

Eu digo amém.

Pois foi isso mesmo.
Aquela cama foi um palco privado em que vivemos juntos seus sonhos e suas fantasias.
Porque o Sr. Shakespeare, não se esqueça, era um homem que se embriagava com a luz do luar.
Vivia dos sonhos. Seus sonhos o criaram.

E eu! Eu fui sua cumplice de bem grado no que conteceu naquela cama, uma atriz das mais devassas.
O que fizemos foi sempre do jeito que eu gostava.
De modo algum pense que foi o contrário.
O Sr. Shakespeare jamais me obrigou a nada.
O que fizemos foi o que eu quis que fosse feito.

Porque agora eu havia descoberto que eu gostava do que ele gostava.

Porque agora eu descobrira que eu queria o que ele queria.
Gostava? Queria?

Devo confessar que eu adorava.
Leitor, eu fiquei enlouquecida com o ato.

E todos os nossos atos secretos nas peças em que atuávamos acabava sempre no mesmo fim carnal.

Parte III - pág. 156 - Cap. 54

Vestiu aquela jaqueta de pele de ovelha.

Depois ficou parado, sorrindo meio tolamente ao lado da cama enorme.
Aquele sorriso era um erro.

Mostrou seus dois dentes pretos e quebrados.
Ele colocava para frente alguns fios de seus cabelos ralos para esconder a calvice de suas temporas.

_Agora sou um lobo - disse o Sr. Shakespeare. - Um lobo em pele de ovelha.

Então tirou meu vestido, meus saiotes de linho, minhas meias, deitou-me naquela cama e fizemos amor.

Parte III - pág. 179 - Cap. 62

Doeu no início.
Mas também não doeu.

Doendo ou não, uma vez que o Sr. Shakespeare havia começado, não tinha como pará-lo.

_E bom? - gritou ele. - Está gostando?

_Não! - gritei. - Não, não estou, não estou, não...
Mas depois que ele fez mais:
_Sim!

Parte III - pág. 194 - Cap. 68


Não foi a enguia que me deixou com ânsia, foi a ideia de que não fosse realmente enguia.

Assim mesmo comi a torta.
O que eu queria era o Sr. Shakespeare.

E quando ele terminou de contar, eu precisava que ele fizesse o que eu sabia que ele faria quando acabássemos de comer a torta.

E ele fez.

Duas vezes.


Parte III - pág. 208 - Cap. 72


Mesmo assim, perguntei o que ele queria dizer com "tudo".
O Sr. Shakespeare disse que o "tudo" queria dizer que quando o ato fosse entre um homem e uma mulher era um prazer escolhido, puro gozo, o extremo dos sentidos.

(...)
Para mim, o sentido era o prazer.

O prazer, e somente o prazer era o sentido para mim.

Imagino que o prazer para o Sr. Shakespeare nunca era suficiente.

Imagino que por esta razão ele precisava inventar outras razões por gostar das coisas que ele gostava.


Parte III - pág. 222 - Cap. 75

O que aconteceu com aquela outra cama, em todos os sentidos, a melhor?

Se eu soubesse, com certeza lhe contaria, mas não sei.
Nunca me atrevi a perguntar ao Sr. Shakespeare. E ele nunca revelou.

Às vezes (antes daquele testamento) eu acordava no meio da noite e ficava imaginando se havia sonhado com a cama e tudo o que havíamos feito nela.
Mas agora eu sei que se foi sonho, o Sr. Shakespeare teve o mesmo sonho.

Meu marido jaz agora seis metros abaixo do chão da capela de Trinity sob o próprio epitáfio:



Bom amigo, pelo amor de Jesus não se atreva a perturbar a poeira aqui enterrada: Abençoado o homem que deixa em paz estas pedras, Amaldiçoado aquele que mover meus restos.
Versos que impossibiltam que eu seja enterrada junto dele quando a minha hora chegar.
Nossa poeira mortal deve descansar separada, em túmulos diferentes.

Mas esta, como eu lhe disse, é uma história de amor, e assim termina.
Será apenas na terra que eu vou dormir na segunda melhor cama.




p.s: não consigo imaginar Londres sendo tão feia quanto a mãe da Sra Shakespeare mencionava no livro - mesmo eu não estando lá.

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