Produções 2.0

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Matéria desenvolvida durante a aula de Jornalismo de Revista, para a revista laboratorial PRETEXTO, do curso de Jornalismo, do Centro Universitário Toledo, sob orientação da professora Karenine Rocha da Cunha, no ano de 2014.



Em Auriflama, oficina incentiva jovens a descobrir e participar da criação de filmes nacionais
Angélica Brito

Quem nunca começou a falar algum texto ou frase espontaneamente quando viu uma câmera ligada virada em sua direção? Quem não conhece uma menina apaixonada por uma dupla ou qualquer cantor e que se espelha nos ídolos para cantar as músicas preferidas, gravadas pela mãe, mesmo que a voz não seja tão boa assim?

Após tantas tecnologias, a história do cinema mudou. O famoso cinema mudo de Chaplin era baseado em imagens e até mesmo frases entre elas, enquanto a orquestra tocava sinfonias ao vivo durante as exibições em meados da década de 1920.

Hoje, as salas de cinema brasileiras apresentam grandes produções, a maioria hollywoodianas, com direito a trilha sonora típica de seus personagens, além de efeitos visuais que são os mais diversos possíveis, sem contar, é claro, a qualidade da imagem e, ainda, as cenas que pegam o telespectador de surpresa em filmes 3D.

Os papais babões podem filmar seus filhos dando os primeiros passos, a primeira apresentação de balé da filha caçula, a formatura da faculdade do filho mais velho, o almoço de família e até mesmo aquele show que sempre sonhou ir. Ficou mais fácil e mais acessível fazer um filme caseiro, e porque não se arriscar em fazer curtas com direito a atores e atrizes e toda uma história a ser contada para o público?

Pensando nessas possibilidades e com o intuito de levar cultura à população, Auriflama, a 60 km de Araçatuba, conta com o projeto Câmera no Trombone do Pontos MIS, um programa de circulação e difusão audiovisual desenvolvido em parceria com o Museu da Imagem e do Som. Por meio dele, o público interessado, abrangendo crianças a partir de sete anos, tem a oportunidade de assistir a filmes dos mais variados tipos, além de participar de oficinas de introdução ao cinema e estimular a produção local.


Na produção de um documentário, os alunos entrevistam o público 
e os idealizadores da apresentação de uma performance


O diretor da Divisão de Cultura do município, Higor Advenssude, acredita que além de ser de extrema importância para o desenvolvimento do ser humano de uma forma geral, as oficinas podem proporcionar um olhar diferenciado para a própria cidade, já que os vídeos são feitos em vários ambientes que às vezes as pessoas não observam ao passar diariamente, incentivando a cultura local.

O resultado dos trabalhos pode vir em longo prazo. Entre os jovens que participam da oficina Câmera no Trombone, a estudante Ester Cânovas pode levar o nome do município para os grandes centros em um futuro não tão distante. Aspirante à cineasta, a jovem de 14 anos é apaixonada pelo cinema nacional, apesar de ser desvalorizado pela maioria dos brasileiros, e garante que seu sonho é se tornar uma grande profissional na área e divulgar suas ideias pelo Brasil e pelo mundo.


Os cenários são os mais diversos na produção de um filme, 
até mesmo a esquina da sua rua pode ser uma opção como plano de fundo


Numa era em que tudo é compartilhado na internet e que todos podem se conectar em qualquer lugar por meio de dispositivos móveis ficou mais conveniente as pessoas divulgarem seus trabalhos. Em questão de minutos ou segundos milhares de pessoas têm acesso ao vídeo e logo o público alvo é conquistado.

Christian Saghaard, cineasta, fotógrafo e produtor, trabalha há 20 anos em festivais e projetos de exibição e é o responsável pela oficina em Auriflama e várias outras cidades. A tecnologia para ele é um ponto positivo, já que agora é possível conhecer produções que vêm de populações que realmente não tinham acesso às gravações e às edições de filmes. Isso faz com que o país seja mais democrático, diverso e rico em relação ao cinema.

Nacional
Embora o preconceito e a rejeição em relação ao cinema nacional tenha diminuído, a produção nacional ainda é desvalorizada no Brasil. Basta verificar a quantidade de filmes brasileiros em cartaz nas salas de cinema.

Christian Saghaard relaciona essa rejeição a questões culturais. “O nosso cinema é o nosso espelho, tem gente que não está disposta a se olhar no espelho, então pode ser mais fácil e menos perigoso ver um filme em outra língua, sobre uma realidade que não tem nada a ver com a nossa, do que ver um filme feito no seu país, na sua cidade, no seu bairro ou na sua rua. Deve ser feito um trabalho para tirar esse preconceito das pessoas em relação ao nosso cinema, pois ele é muito bem avaliado no mundo todo”.


Em Auriflama, a oficina Câmera no Trombone proporciona aos jovens 
a oportunidade de resgatar a cultura local


O investimento feito nas produções audiovisuais ainda é pequeno para que a cultura possa ser considerada uma indústria e ter profissionais se sustentando a partir desse trabalho. Além disso, é comum observar na produção nacional a estética novelesca aplicada aos filmes.

Talvez a saída para o sucesso do cinema nacional entre os brasileiros seja espelhar-se nos grandes centros como Hollywood e Bollywood, na Índia, assim como nas produções argentinas e francesas, e não deixar que produções brasileiras sejam esquecidas ou desvalorizadas.


(Clique na foto para ampliar)


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